"Que Horas Ela Volta?" É singelo e verdadeiro
"Que Horas Ela Volta?" é de uma sensibilidade incrível. A diretora Anna Muylaert (É Proibido Fumar e Chamada a Cobrar) antes de seu primeiro longa-metragem, Durval Discos (2002), já tinha a ideia de fazer este filme mas não se julgava capaz naquele momento. E parece que isso fez muito bem, pois a diretora pode amadurecer bastante a idéia e conseguir os recursos necessários e ganhar notoriedade para conseguir planejar esta obra tão singela, verdadeira e peculiar com a presença ilustre não apenas de Regina Cazé (Made In China e Eu, Tu, Eles), mas de outros nomes de peso em participações especiais ilustres como Luis Miranda (Muita Calma Nessa Hora), Lourenço Mutarelli autor dos livros, "Natimorto" e "O Cheiro do Ralo", que viraram filmes e inclusive com a participação do próprio, que aqui da um show de interpretação com um personagem extremamente calmo e desarticulado, bem diferente do segurança esquentado de Selton Mello em "O Cheiro do Ralo".
Originalmente intitulado A Porta da Cozinha, baseado na própria experiência de Anna Muylaert com uma babá, que cuidou de seu filho depois de ter deixado sua própria filha. O roteiro foi reescrito quatro vezes por ela e Regina Casé desde a sua primeira concepção, quando Muylaert considerava que ainda estava "imaturo". Regina Casé tem um papel importante já que ela conhece muito bem a realidade de diversas mulheres nordestinas que foram para São Paulo em busca de um emprego, e Anna Muylaert não procurava criar uma caricatura do que seria um personagem real. Ao contrário, ela escreveu a história, porque em sua opinião, cuidar de crianças de outras pessoas é "trabalho sagrado que é muito subestimado."
O roteiro usa em demasia de alguns símbolos como o sorvete e as xícaras de café, pontuando esse cotidiano tão simples e aparentemente sem grandes novidades por parecer que nada de interessante ou relevante esteja acontecendo mas está, fazendo com que alguns símbolos ganhem mais importância que outros podendo parecer repetitivo, mas é colocado com a mais perfeita naturalidade, que se deve muito também não apenas da direção mas principalmente na carga precisa e realista de Regina Casé, com a leveza como ela conduz essa personagem tão bem estruturada, que até uma cena onde estende roupas no varal, ganha nuances e simbolizam tanta coisa como uma simples virada de balde e um olhar cheio de verdades e devaneios que conduzem o expectador a se interessar tanto por essa mulher e nos fazer ter tanta empatia por ela mesmo quando não esta dizendo nada. São diversos os momentos inclusive onde a personagem esta de costas para a câmera e ainda assim conseguimos nos sensibilizar e se interessar por ela, tanto que logo no início do filme vamos aos pouco sendo apresentado aos personagens e ainda sem saber nada deles, conseguimos ver verdade e sentir um pouco dessa personagem, mesmo sem termos tempo de criar qualquer tipo de vínculo. Regina Cazé nos entrega um trabalho tão digno, artístico e emocionante que poucos conseguem. Falar com as costas como o ator Richard Chamberlain ao retratar o músico e maestro Tchaikovsky no filme "Delírio de Amor" e até mesmo Jim Carrey em "O Show de Truman", uma tarefa nada fácil para um ator.
O filme é de uma sensibilidade ímpar onde muitos vão se indentificar e poderão enxergar as próprias famílias ou até mesmo de conhecidos, pois se trata de um verdadeiro retrato de nossa sociedade, onde mesmo com vínculos emocionais na relação de patrões e suas domésticas, ainda existe uma hierarquia muito presente que afasta a humanidade do ser humano, deixando claro o papel de cada un neste ambiente, quando se trata de uma empregada e uma família de classe média alta e suas diferenças são deixadas bem claras. A personagem da filha (Camila Márdila) que chega do nordeste para prestar vestibular e nunca havia estado em uma casa como aquela onde sua mãe trabalha e também mora (para sua surpresa, após ficar ausente por 10 anos) é cheia de regras, mesmo que imaginárias, que pra ela são irrelavantes, questiona o porque de certaz atitudes que sua mãe toma ao recriminar ela de outros pontos de fato questionáveis como o simples fato do real motivo dela não poder sentar na mesa da cozinha da família mesmo tento criado o filho de sua patroa como uma mãe, mais ainda do que a própria a mais de 10 anos trabalhando na casa. Esses e outros questionamentos vão perdurando durante o filme e as vezes muito subentendidos entre outros fatos abordados com muito cunho social tocando em assuntos que podem parecer banais mas que reagem de maneira negativa criando amarras imaginárias e conceitos retrógrados em toda uma sociedade.
Este filme ao abordar essas questões ainda em pleno século XXI, mostra que a sociedade ainda tem muito o que evoluir, e arrisca em abordar esses temas de uma maneira tão simples e ao mesmo tempo objetiva e recheada de contextos em uma época que o cinema esta cada dia mais voltado ao puro entretenimento, e mostra aqui que podemos sim ter isso mas com muita qualidade, sem ser apelativo ou melodramático.
Um dos pouquíssimos pontos negativos (se é que tem) neste filme que eu achei, são os planos extremamente fechados utilizados muito em novelas que incomoda um pouco e a exploração demasiada do plano sequência em diversos momentos do filme, que talvez tenha sido pra guardar a naturalidade dos atores e autenticidade das cenas criando um clima mais plausível e extremamente realista e até mesmo pra fazer o expectador entrar no jogo como uma mosca entrando no cotidiano desses personagens, mas em momentos que queremos ver a reação dos personagens perante uma situação o plano esta aberto e sequencial e quando poderia estar aberto para as ações físicas dos personagens o plano fecha desnecessáriamente e a ausência da trilha sonora, que pode também ser proposital justamente pra guardar a autenticidade da cena dentro da proposta do filme, mas nada que desmereça o trabalho.
A estreia mundial do filme aconteceu no início de 2015, no Sundance Film Festival, em Utah nos Estados Unidos. O longa brasileiro estreou nos cinemas de sete países europeus, antes de chegar ao Brasil, onde o longa já tinha sido visto por quase meio milhão de pessoas na Europa. Somente na França em apenas quatro semanas de exibição o filme superou a marca de 150 mil ingressos vendidos. Na Itália alcançou a 8ª posição do ranking dos filmes mais vistos. Nos Estados Unidos teve uma bilheteria considerada satisfatória para uma produção estrangeira, arrecadando $376,986 mil dólares. No total em arrecadação no mundo tudo o filme atingiu a incrível marca de R$ 6.2 milhões.
Além de ser eleito em 2015 o melhor filme do ano entrando na lista dos 100 melhores filmes brasileiros segundo a Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) o filme foi o escolhido pelo Ministério da Cultura entre 8 longas brasileiros, para representar o Brasil na disputa pelo Oscar de melhor filme estrangeiro da edição de 2016, mas infelizmente e muito injustamente, não foi indicado, mas o longa foi indicado a várias categorias em diversos festivais nacionais e internacionais até mais importantes que o Oscar.
Confira os prêmios que o filme faturou:
PRÊMIOS INTERNACIONAIS:
* Festival Sundance Prêmio Especial do Júri Pela Atuação para Regina Casé e Camila Márdila
* Festival de Berlim - Prêmio do Público de Melhor ficção na Mostra Panorama e Prêmio CICCAE.
* RiverRun International Film Festival - Melhor Roteiro
* Seattle International Film Festival Melhor Atriz para Regina Casé em 4• Lugar.
* World Cinema Amsterdam Festival - Prêmio do Público para Melhor Filme
* Festival de Cinema de Lima - Troféu APC.
* Valletta Film Festival Melhor Direção: Anna Muylaert
* Festival de Cinema Brasileiro em Moscou - Prêmio do Público para Melhor Filme.
* National Board of Review - Top 5 de Filmes Estrangeiros.
* Ljubljana International Film Festival - Prêmio do Público para Melhor Filme.
PRÊMIOS NACIONAIS:
* Grande Prêmio do Cinema Brasileiro - Melhor Longa-Metragem Ficção 2016 · Anna Muylaert, Débora Ivanov, Fabiano Gullane
* Grande Prêmio do Cinema Brasileiro - Melhor Atriz 2016 · Regina Casé
* Grande Prêmio do Cinema Brasileiro - Melhor Roteiro Original 2016 · Anna Muylaert
* Grande Prêmio do Cinema Brasileiro - Melhor Montagem Ficção 2016 · Karen Harley
* Grande Prêmio do Cinema Brasileiro - Melhor Direção 2016 · Anna Muylaert
* Grande Prêmio do Cinema Brasileiro - Melhor Atriz Coadjuvante 2016 · Camila Márdila
* Troféu APCA Melhor Filme e Melhor Atriz para Regina Cazé.
* Abraccine - Melhor Longa Brasileiro
* Prêmio Ariel - Melhor Filme Ibero-Americano 2017 · Anna Muylaert.
O filme já esta disponível gratuitamente no Canal Brasil para alugar, quem possui serviço de Tv por assinatura.












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