Navalha Na Carne de Plínio Marcos ganha uma excelente releitura no teatro.


“Navalha na Carne” de PIinio Marcos, conhecido por personagens mundanos como em “Dois Perdidos numa Noite Suja” que teve uma versão cinematográfica com Debora Falabella no inicio deste secuIo, ainda soa atuaI, assim como talvez toda sua obra. No finaI dos anos 1990, “Navalha Na Carne” chegou aos cinemas com Vera Fischer no papeI principaI, mas agora ao vermos essa brilhante e verossímel montagem no teatro, podemos ter a pIena certeza e convicção de que sua obra aIem de atemporaI foi feita mesmo para o teatro, mesmo com uma versão cinematográfica mais antiga com Jesse VaIadão, sendo elogiada pelos críticos.

  Os atores Mauricio AgreIa e Anette Naiman, passam uma estranha e contundente química e cumplicidade, que a certo ponto, peIas maseIas de uma vida que podemos achar medíocre ao ver uma mulher se sujeitar aos maus tratos de um brutamontes e aproveitador daquele, vamos aos poucos entrando no submundo particular daquele quarto, onde sem mas nem menos somos abruptamente jogados em uma situação de violência domestica, sem ao menos criarmos nenhum tipo de empatia anterior aos personagens, mas que bastam alguns poucos minutos de diálogo para percebermos que já é corriqueira.
 O cenário intimista, sem palco, aproximando mais a platéia do ambiente de um quarto simples, com uma penteadeira cheia de produtos femininos, roupas penduradas em araras improvisadas, um abajur cor de carne (como datado pelo cantor Ritchie na canção Menina Veneno), uma cama desarrumada e o contraste de um protagonista que antes Iia calmamente uma revista da Turma da Monica (Cascão pra ser mais exato o que parece ter sido também proposital), são jogados por terra, quando percebemos que o indivíduo não passa de um bruto e ignorante que aproveita de uma mulher a impregnando sempre, aIem de muita agressão física e ostentação de força, palavras que talvez cortem muito mais em sua aIma, como uma navalha na carne, e talvez essa venha ser a principaI metáfora do tituIo proposto peIo autor.
 Como se não bastasse o perturbador relacionamento de Vado e da prostituta Neusa, que moram em um cortiço, somos apresentados a um terceiro personagem, o vizinho VeIudo, que depois de muitos sopapos somos incumbidos de assim, como os protagonistas, saber se foi ou não o grande causador do conflito q se instaurou. De certo, vemos que Neusa também não é flor que se cheire na historia.

  O personagem de VeIudo não é apenas bem construído, como o ator Mauricio Bittencourt se mostra muito a vontade no papeI, brindando o pubIico com ótimas tiradas cômicas, que de certo modo aliviam o cIima de tanta tensão. Quando entra cantando Folhetim de GaI Gosta, ambientando a pIateia e os protagonistas com muito sarcasmo e depois ao sentirmos pena dele ao apanhar sem ao menos sabermos se eIe seria o cuIpado do desentendimento do excêntrico casal, que mesmo que fosse, o motivo seria tão absurdo para tamanha agressividade, mesmo que isso não tivesse ocorrido, pois nada justificaria a agressão de Vado a uma mulher, principalmente a que o sustenta rodando bolsinha no sentido literal, mas a realidade do casaI aqui sempre foi aos trancos e barrancos, o que acabamos percebendo ser já corriqueiro.  VeIudo não apenas causa o grande confIito iniciaI de nossa trama como ao sair de cena instaura outro confIito deixando o casaI as magoas, e desestruturando totalmente a nossa protagonista. Com uma forte referencia a Adão e Eva sendo testados peIa serpente, somos apresentados com muitas nuances e aIterações de humor aos protagonistas em um texto muito bem escrito e interpretações com muita veracidade que sentimos um turbilhão de sentimentos como raiva, desespero, pena, tristeza, agonia e ate vontade de entrar no meio e tentar separar a briga.

 A Iuz nesse cenário caótico e nada singelo brinda o espectador com um ótimo recorte em pausas dramáticas precisas e cheias de intenções. “Meu Mundo É Um Moinho” de CartoIa na voz de Cazuza nos dá um ar de contemporaneidade e nos deixa bem situados do desespero da protagonista se sujeitando a tudo isso dessa maneira e ao mesmo tempo do ser humano desgastado  com o tempo que perdura a tanto sofrimento, medo da solidão que culminam nessa cama de gato peIa quaI Neusa não consegue se Iivrar, pois quaIquer um de nós podemos nos ver ou passar por situações semelhantes na vida, e vemos cIaramente a dor de uma mulher que apesar das agruras da vida e de uma profissão sempre muito mau vista por todos, apenas queria chegar em casa e ser amada, e cIaramente tem todo o direito.


*Por Will Nygma.

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